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Obras e autores literários são analisados por Vitor Fernandes em trabalhos provenientes do seu período de graduação, pós-graduação e pesquisa. Veja algumas considerações sobre "Madame Bovary" de Gustave Flaubert realizadas em parceria com Cassia Fernanda Mendes. Para ver outros trabalhos, clique em Textos e escolha o título desejado.
Análises
www.litteratu.com - Ourinhos/2010

O romance “Madame Bovary” de Gustave Flaubert narra a história de Emma Bovary e apresenta o seu processo de formação, ponto principal dessa obra, através de uma narração em terceira pessoa. Esse processo possui uma linha decrescente, onde ocorre a degradação da personagem, que vai perdendo a sua inocência, e culmina com a sua morte provocada pela própria consciência.
Analisando a obra pode-se perceber essa situação já a partir do primeiro capítulo (da primeira parte), quando se inicia a apresentação dos personagens. Neste ponto, Emma nem é citada, porém, nas passagens narradas sobre Carlos Bovary, sua infância e juventude, sua família e seu casamento, existe uma idealização e o desejo, por parte de Carlos, de se ter alguém que tivesse só qualidades, como pode ser observado no fragmento:
“(...) À noite, quando Carlos regressava, punha-se a cingir-lhe o pescoço com os braços magros que tirava do calor dos cobertores e, depois de o fazer sentar-se à beira do leito começava a contar-lhe os seus aborrecimentos: ele a esquecia, amava outra! Bem lhe tinham dito que seria infeliz (...)”Começa então a ser formada a imagem de Emma, que representaria a pessoa ideal. Nesse ponto tem início o desenvolvimento da trama e para tanto, a personagem da futura senhora Bovary está num nível superior, “idealizado”, e o seu processo de formação e de degradação estará centrado no choque entre a essência e a aparência. Como outros heróis trágicos já vistos, caso de Édipo da obra “Édipo Rei” de Sófocles ou Camilo de “A Cartomante” de Machado de Assis, a personagem de Gustave Flaubert vai “conhecer-se a si mesma”. A inocência apresentada através da doçura e dos sonhos se quebra, e os sentimentos verdadeiros aparecem, construindo um ser insaciável que busca sempre ter mais, mesmo que lhe seja algo proibido. Ao assumir essa condição de vida, Emma não pensa nas consequências quando é seduzida por bens materiais e paixões ardentes, mas a realidade sempre cruza seu caminho e a felicidade momentânea é substituída por novos desejos e o que é pior, mostra-lhe a sua falta de escrúpulos e princípios. Essa ânsia por realizar seus desejos a torna “cega de espírito”, quando novamente podemos compará-la aos personagens de outras obras já citadas e chega ao ponto de levá-a ao “fundo do poço”. Após ser chantageada por L´Heureux e ter consciência de tudo que fez, seu final é trágico culminando com a morte.
O capítulo VIII da terceira parte da obra é o extremo oposto daquele visto anteriormente, pois entre um e outro ocorre todo o processo de degradação da personagem, conforme já observado. A idealização de Emma é substituída pela conclusão de sua formação, quando sem sonhos e esperanças, seus olhos se abrem:“(...) Permaneceu perdida de pasmo, não tendo já consciência de si, senão pelo bater das suas artérias, que julgava ouvir escaparem-se lhe, como música ensurdecedora que enchesse os campos. O solo, debaixo de seus pés, era mais movediço que uma onda, e os valados pareciam-lhe imensas vagas escuras, em um cachoar contínuo (...) A loucura invadiu-a, teve medo e afinal conseguiu retomar posse de si (...) ”
Neste ponto, Emma está despojada de qualquer “couraça” que a proteja ou que esconda seus erros, a consciência de seus “pecados” levam-na a concluir o seu processo de perda da inocência, atingindo assim o clímax desse enredo, e que só ocorre com a sua morte, num triste desenlace:
“(...) e chegou à farmácia de Homais. Não havia ali ninguém (...) Emma foi direto à terceira prateleira, tal a justeza com que a memória a guiava, pegou no frasco azul, destapou-o, meteu-lhe dentro a mão, tirou um punhado de pó branco e pôs-se imediatamente a comê-lo (...) Depois, voltou-se, subitamente tranquila e quase que com a serenidade de um dever cumprido (...)” (e já em casa) “(...) Segui-se uma convulsão; que a fez de novo deitar. Todos se aproximaram. Emma não existia mais.”
O processo de formação de Madame Bovary está centrado na tensão existente entre a ilusão e a realidade, pois Emma cria seu próprio mundo para viver, sendo esse um mundo de aparências. Isso fica claro em vários momentos da história, quando, por exemplo, ela se desilude com seu casamento com Carlos e passa a desejar um novo relacionamento, ou quando fica indignada com sua vida social já que gostaria de participar das grandes festas da sociedade, ou ainda, quando se irrita com a falta de ambição do marido pois queria o sucesso, tudo confrontando com a sua vida na essência. Diante desse, pontos de desordem, a personagem vai se formando e observa-se que Emma não aceita a sua vida, vivendo de sonhos, ilusões e ficando totalmente “cega de espírito” num verdadeiro encantamento frente a um mundo romântico. Esse distanciamento da realidade é o grande responsável pela perda da inocência e sua consequente degradação, pois a personagem não tem mais noção do que é certo ou errado, tudo é válido na realização de um sonho:
“(...) Emma não dormia; fingia fazê-lo. E, enquanto ele adormecia ao seu lado, ela era arrebatada por outros sonhos (...) levantou-se cedo e vestiu-se silenciosamente para não acordar Carlos (...) Quando o relógio marcava 7 horas e um quarto, dirigiu-se ela ao Leão de Ouro (...) A Andorinha partiu a trote curto (...) Paravam na barreira; Emma desafivelava os tamanquinhos (...) apeava-se da Andorinha (...) caminhava de olhos no chão, rente às paredes, e sorrindo-se de prazer por baixo do véu preto. Com receio de ser vista, não seguia nunca pelo caminho mais curto (...) León, que ia pelo passeio, continuava a caminhar. Emma seguia-o até o hotel; Leon subia, abria a porta e entrava... Que abraço!”
Dentro da obra “Madame Bovary” nenhum outro personagem possui um processo de degradação tão marcante como o apresentado por Emma Bovary, pois as tensões giram ao seu redor e os demais personagens, mesmo os outros protagonistas, ajudam a compor essas situações. Observa-se, por exemplo em Carlos, uma vida na sua “essência”, sem os conflitos vividos por Emma que, por sua vez, tem uma vida de “aparência” e totalmente contrária a anterior. Outros personagens como León e Rodolfo, que participam dessa vida de ilusões de Emma, o fazem de maneira consciente, muito diferente da “cegueira psicológica” que toma conta da heroína trágica.
É de grande valia também comparar a protagonista dessa obra com outros heróis já vistos, como por exemplo, Lázaro de “Lazarilho de Tormes” que ao contrário de Emma apresenta um processo de ascensão em sua formação, um crescimento através das tensões que enfrenta, ou com Édipo de “Édipo Rei” e Camilo de “A Cartomante” que mostram, da mesma maneira, uma “cegueira espiritual” que os impede de enxergar a realidade dos acontecimentos e o futuro que está por vir, ou até mesmo Pilar de “Conto de Escola” de Machado de Assis, que também tem sua inocência quebrada no processo de formação, onde aprende a corrupção e a delação.Vitor Fernandes / Cassia Fernanda Mendes