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Acesse o site preparado pela FAPESP, em parceria com a UNICAMP e a Fundação Padre Anchieta, contendo todas as entrevistas realizadas no programa Roda Viva da TV Cultura. Você vai encontrar vídeos com trechos das entrevistas e suas transcrições na íntegra. Vale a pena dar uma olhadinha! Clique aqui

Lágrimas

A praça estava quase deserta, pois o sol, impiedoso, castigava quem ousasse caminhar por aquele chão de terra batida. O vendedor de água suava muito, mas não abandonava o seu posto, na esperança de que pudesse esvaziar a caixa de isopor assim que o ônibus chegasse.
João sentiu o vento levantando a poeira do sertão e protegeu, com a própria mão, os olhos tristes de Isabel. Eles estavam sentados no banco, bem em frente ao coreto, aguardando a única lotação que, diariamente, levava os sonhos e trazia as desilusões de um povo sofrido.
O silêncio envolvia o jovem casal, que era abençoado pela imagem de pedra do Padim Padi Ciço, como dizia Dinha, a querida avó materna de João. Aliás, ela não gostava de ser corrigida. É Padre Cícero, vó! Eu sei meu fio! Assim como o sertão, ela nunca mudaria, mesmo porque ali todos acreditavam no Padim Padi Ciço.
Ao ouvir o som do motor, João levantou e pegou a sua pequena mala, uma trouxa de roupa. Isabel abraçou o marido fortemente, como se nunca mais fosse soltar. Ele, por sua vez, deu um beijo carinhoso, enquanto o ônibus estacionava. Olhos nos olhos, não tinham a certeza de que aquilo era, realmente, o melhor para suas vidas.
Olha a água gelada! Gritou o vendedor e os passageiros abriam as janelas. Em poucos minutos o estoque acabou, assim como esgotou o tempo de João e Isabel. Será que todo aquele sacrifício valeria a pena? A decisão estava tomada: ele iria para o sul e, quando tivesse condições, mandaria buscar Isabel, juntamente com as crianças.
Ninguém desceu do ônibus... Isso era um bom sinal, pois o retorno de pessoas desiludidas pela busca frustrada de um lugar melhor, longe dali, sentenciava o destino daquele povo. Enquanto o motorista preenchia a passagem, João enxugou a lágrima que marcou o rosto de Isabel. Ela não disse uma única palavra. Talvez não tivesse forças... Talvez não concordasse... Mas resignou-se e, quando ele ameaçou falar algo, ela fechou-lhe os lábios com um beijo. Estava na hora de ir...
João fez o sinal da cruz e entrou no ônibus que o levaria para o desconhecido. Escolheu um lugar na janela. Não havia ninguém ao seu lado. Ele viajaria solitário, numa demonstração de como seria a sua vida dali para frente. O vidro fechado separou os mundos de Isabel e João. Ela acenava, enquanto suas lágrimas, como um rio, molhavam a terra seca. Ele, por sua vez, mantinha o olhar fixo na esposa, porém a rudez do homem do sertão impediu que seus olhos derramassem uma única gota.
Um rastro de poeira foi o que restou. Isabel benzeu-se na frente da imagem do Padim Padi Ciço e retornou para casa, duvidosa do seu futuro, mas com a certeza de que, mesmo difícil, a vida continuaria para ela e para as crianças. Muitos que deixaram o sertão não voltaram. Isabel teve lágrimas para chorar enquanto acreditou no retorno de João.
Hoje, ela não chora mais...  

Vitor Fernandes

Velocità

Quando pus os pés fora do hospital, a porta de vidro se fechou, automaticamente, atrás de mim. Eu não sabia quanto tempo havia se passado e não me lembrava daquela rua. O movimento era intenso, o barulho ensurdecedor, o medo impediu que eu desse um único passo.
A porta se abriu novamente e as pessoas saíram apressadas, esbarrando em mim, como se eu estivesse atrapalhando, e eu realmente estava. A minha bolsa foi arremessada a alguns metros, mas isso nem foi percebido, pois todos estavam sem tempo. Ninguém me ajudou, afinal de contas, eu não estava doente mesmo. Eu era apenas alguém, ou talvez ninguém, que segundo disseram os médicos dormira durante anos. Recordo apenas de uma forte dor de cabeça.
Com dificuldade consegui sair do lugar. A preocupação substituiu o medo e tentei resgatar os meus pertences em meio a um emaranhado de pernas, que se moviam muito rapidamente. Parecia que o mundo inteiro estava atrasado.
Aquele movimento me atordoava e sem noção caminhei para a rua, a fim de atravessá-la e buscar um porto seguro. Nem havia descido da calçada e buzinas começaram a gritar incessantemente, berros eram proferidos. Está louco! Está louca! Realmente eu estava. Voltei com os olhos fechados. A multidão me carregou em seus braços. Não conseguia nadar contra a correnteza e fui levado, rio abaixo, até que todos pararam, uniformemente. A luz que estava vermelha ficou verde. Vamos! Vamos! Um apito foi ouvido. O que parecia ser um guarda - e era um guarda, mas eu não reconhecia a sua farda - movimentava as mãos rapidamente, ordenando que os pedestres atravessassem a movimentada avenida. Eu fui arrastado.
Do outro lado, cada um se moveu para um sentido. Era uma praça e finalmente eu estava livre. Pessoas se aproximaram. Ofereceram coisas. Óculos, relógio, doces... Coloquei uma mão no ouvido. Aquilo tudo me confundia. Tentei colocar a outra. Alguém puxou e levou a minha bolsa. Voltei-me, mas não vi nada. Olhei para todos os lados, girei, fiquei zonzo e sentei no primeiro banco que encontrei.
Só assim senti-me melhor, pude respirar fundo e observar, com calma, aquilo que mais parecia um formigueiro humano. Ali fiquei, durante horas, sem fazer parte daquele universo alucinante. A noite chegou, porém a velocidade continuou, os carros, diferentes dos que eu conhecia, circulavam em disparada. Luzes corriam no asfalto. Arrisquei levantar-me e ao olhar para cima, vi milhares de cores, piscando, freneticamente. A noite tinha vida própria. Minha visão estava ofuscada. Caminhei sem rumo, sem norte...
A vida passara muito rapidamente para mim e eu não sabia quanto tempo separava o antes e o depois. Dez anos... Vinte. Trinta talvez. Também pudera, o universo respirava velocidade e até parecia que a Terra girava mais rapidamente. Senti náuseas. Eu estava fora do meu tempo, e a normalidade para as outras pessoas, significava o caos para mim. Deitei-me, vagarosamente, e resolvi esperar o tempo passar. Afinal de contas ele voava, e a minha existência não demoraria a chegar ao seu final.

Vitor Fernandes

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Paz

O fim de um dia estressante, de trânsito caótico e muito trabalho, deu-me mais uma vez a sensação do dever cumprido. Estar em casa outra vez significava uma trégua na guerra diária, enfrentada para se ter e ser o melhor... E isso bastava. No retorno ainda tivera o desconforto perigoso da pista escorregadia. Uma chuva torrencial foi a minha companhia na bela e sinuosa estrada que une a selva de pedra ao meu paraíso perdido, já no início da serra.  Descansar era só o que eu queria e precisava, afinal de contas, na próxima manhã começaria um novo capítulo na busca constante pelo sucesso, que como prêmio, traria a tão desejada paz.
Estranhamente, naquela noite, não consegui dormir tão facilmente como das outras vezes. Apesar de satisfeito com as conquistas do dia e confiante na próxima vitória, um vazio foi crescendo dentro de mim. Eu estava pressentindo que algo importante estava por acontecer. Talvez um grande negócio a se concretizar na reunião que começaria as oito em ponto... Isso me fez lembrar que deveria acordar cedo... Ou então, quem sabe, a tão sonhada nomeação para o cargo de diretoria, que há tempos já me achava merecedor. E depois... Sombra e água fresca.
Porém, não preguei os olhos. Olhei dezenas de vezes para o rádio-relógio. Para o de pulso então nem se fala! Uma, duas, três, quatro da manhã e eu continuava envolvido por pensamentos sem nexo, ora de trabalho, ora de sexo. A última vez que recordo ter visto a hora, já passavam das seis. Quando abri os olhos, o quarto continuava escuro, porém o tempo voara. Os números vermelhos no fundo negro implacavelmente me diziam que eu estava atrasado... Muito atrasado! Permaneci olhando o número doze, esperando que se transformasse no seis que eu havia enxergado instantes antes. Nada mudou...Pensei em sair correndo e recuperar o tempo perdido, pois eu estava tão próximo do meu objetivo, do objetivo que todos almejam, mas dentro de mim, só existiam dúvidas.
Será que eu teria sempre que disputar, conquistar, possuir? Colocar-me contra tudo e contra todos que atravessassem meu caminho? Buscar o que a sociedade ditava como paz e felicidade? Permiti-me não fazer nada disso... Pelo menos naquele instante, tomei a decisão de não manipular mais o meu próprio destino e esperar que o curso natural da vida indicasse o caminho.
Respirei fundo e lentamente abri a janela do meu quarto. O sol do meio-dia, com toda a sua majestade, entrou e me abraçou, tomou conta do lugar. Luz e calor... Calor e luz que transformaram um ambiente sombrio e triste num espaço repleto da mais completa alegria. Amarelo, verde, anil, tudo foi se revestindo de vida diante dos meus olhos. Senti o leve frescor da brisa que me convidou, gratuitamente, a descobrir o que estava a minha volta. Não era a primeira vez que eu abria aquela janela, mas era sim, a primeira vez que eu me sentia seduzido pelo que ela me mostrava... o simples... o belo...
Sob o canto dos pássaros, invisíveis nas copas das árvores, pude contemplar o gigante verde que começava a se formar ali pertinho e só não tocava o imenso céu azul porque umas nuvens brancas, quase transparentes, faziam questão de esconder o encontro. Em pouco tempo, o astro rei, que se movia em busca do seu repouso, se juntou ao grupo e um círculo alaranjado podia ser percebido, perfeitamente, atrás da sua proteção de algodão. A natureza, que se quisesse, provocaria grandes catástrofes, apresentava-se harmoniosa e os seus integrantes não mediam forças, ao contrário, se uniam para compor um lindo espetáculo. Lição para qualquer um, principalmente para quem era capaz de destruir para se projetar.
Maravilhado, fiquei horas sentindo aromas, admirando formas e cores, que encenavam os atos daquela peça diária. Um sentimento de tranquilidade imperou no ar e só quando a lua veio assumir o seu posto, acompanhada de milhares de brilhantes, é que o êxtase deu lugar à felicidade. Uma felicidade que brotou do fundo da alma, reflexo de que em mim, naquele exato momento, não existia nenhum conflito. Finalmente eu estava feliz... Finalmente eu estava em paz!

     
                                                                                                                   Vitor Fernandes

Teus olhos

Tudo ficou escuro de repente...
Quando a noite envolveu todo o ambiente, eu estava de pé, junto à porta do quarto, olhando pro nada e pensando nos teus pequenos olhos negros que, tristes, não demonstravam sequer uma única ponta de esperança de reverter aquele adeus. Não tinha ideia do que acontecera, se era um defeito elétrico na casa ou uma falta de energia no bairro. Também, pouco importava... O momento sombrio bem representava o meu sentimento, e assim era melhor que continuasse, pois a luminosidade reforçaria a dor da realidade.
Era impressionante como não havia um mísero sinal de luz... Nem mesmo a lua, portentosa, que invariavelmente clareava a sala através da velha janela de vidros opacos, conseguia vencer o seu frágil obstáculo. Ora, se nem mesmo a luz, que alcança distâncias extraordinárias, conseguia fazer notar a sua importância, quanto mais um ser desgraçado, que nem conseguia enxergar a si mesmo, poderia sensibilizar alguém a manter-se ao seu lado.
Comecei a ficar ansioso com a situação que se prolongava, pois o que conseguia ver quando estava com os olhos abertos era o mesmo que ao fechá-los: nada, nada e nada... Minha imaginação passou a comandar-me e tornei a pensar nos teus olhos. Eles, agora castanhos, manifestavam um desprezo extremo. Assustei-me, uma vez que não encontrava razões para sofrer tal censura.
Ao voltar para a segurança da penumbra, percebi que, misteriosamente, uma vela acesa aparecera sobre a mesa da sala. Estando bem à minha frente, ela iluminava todo o cômodo, porém, estranhamente, seus raios não atingiam o quarto, a cozinha e o banheiro, nem produziam sombra quando interceptados pelo meu corpo opaco.
Permaneci estático, tomado agora pelo pavor. Nesse transe, a imagem da vela foi se desfigurando à medida que, novamente, razão e imaginação travavam uma árdua luta pelo meu controle. Paulatinamente, a visão do teu olhar ganhava forma. Então estremeci... Nunca tinha visto algo assim: olhos vermelhos, que transmitiam uma ira insana a ponto de não conseguir fitá-los, fuzilavam-me sem que eu pudesse me defender.
Um forte barulho, como se algo batesse na madeira, chamou minha atenção e pude ver um punhal sobre a mesa, ao lado da vela. Sua lâmina brilhava... Atraía-me... Senti-me como se estivesse hipnotizado por aquela arma. Isso fez com que eu conseguisse me mover e caminhei, lentamente, em direção ao móvel iluminado.
Meus olhos permaneciam bem abertos, mas eu não comandava completamente minhas ações. Parei bem junto à mesa. Minha mão direita, decidida, pegou o punhal com tal intimidade que parecia formar uma antiga parceria. A lâmina estava apontada para o meu próprio corpo. Ergui o braço, cuja mão suada, segurava vigorosamente a arma e fechei os olhos.
Um movimento, quase que involuntário... Um grito... Senti meu coração queimar... Abri os olhos, assustado, e um nó na garganta misturava-se a um soluçar incessante.
Os raios do sol, que entravam pela janela do quarto, impediam que eu abrisse totalmente os olhos. Aos poucos uma imagem foi se formando e vi, finalmente, os teus olhos, sublimes, onde o verde se mistura ao azul num tom de cinza que encanta... Que me encanta. Junto, um sorriso inebriante foi o pano de fundo de uma pergunta inevitável: - Tá tudo bem?
Assenti com a cabeça, pois olhando para o meu corpo intacto, vi que tudo estava mesmo bem.
Ouvi ainda o teu comentário confortante: - Foi só um sonho.
E pensei: É, realmente... Foi só um sonho...

Vitor Fernandes

 

Alunos

 

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Solidão

Cai a noite, e uma sensação de solidão envolve todo o meu ser, o silêncio ensurdecedor me coloca frente-a-frente com o mundo dos meus pensamentos. Não posso estar só, tanta gente lá fora, mas nenhuma resposta aos meus anseios.
Sim, eu estou só! Nenhum movimento existe no meu quarto e a porta fechada ajuda a distanciar-me de tudo aquilo que não é meu. A cama feita, com uma bela colcha de cetim, parece tão fria, que nem me aproximo. O grande espelho na parede, parece me vigiar constantemente, a ponto de não mais querer fitá-lo.
Olho, então, pela janela com a certeza de que a solução está lá, depois do vidro intransponível, inquebrável: as luzes brilham, porém o meu coração não palpita. Sinto uma brisa tocando meu rosto como uma mão que me acaricia e percebo que a solução está dentro de mim.
Fecho os olhos, não quero mais ver ao longe, não quero mais ver a vida, mas é impossível enxergar meu interior, tão próximo e tão escuro. Como saber que rumo tomar? Essa insegurança só se desfaz quando num sentimento indescritível, não sei se de alívio ou de esperança, uma imagem se forma em meu pensamento, terna, doce, envolvente e no mesmo silêncio, que agora é sublime, pede que eu me deixe amar.
Tento reconhecê-la, não consigo, pois seu rosto, sem alterar o semblante, se transforma a todo instante e tenho a sensação de que ali estão todos os que passaram em minha vida, até mesmo aquelas pessoas com quem fui rude. Ah! E como fiz isso! E quantos eu atingi!
Talvez eu mereça mesmo estar só... mas... porque o amor, na forma dessas pessoas, vem até mim? Por quê?
Uma lágrima corre em meu rosto e quando abro os olhos, percebo que ninguém está ao meu lado, embora agora sinta no meu íntimo, que não estou e nunca estive só. Meu sorriso se abre lentamente, da mesma forma que o meu coração e a vontade é de gritar com toda força, pois só agora me permiti sentir o amor que as pessoas têm por mim e entendi que a solidão existente em meu interior escurecia a luz maravilhosa desse sentimento. Não me contento em olhar apenas ao redor, já que o meu quarto, o meu mundo, se tornou muito pequeno e volto à janela, não mais para buscar respostas e sim para contemplar e desejar o que existe do outro lado.
Tomo uma decisão e abro a porta... para a vida!                                   

Vitor Fernandes

A sombra

Acelerei os passos quando percebi a penumbra avançar sobre aquele final de tarde cinzento. Uma garoa fina molhava o meu casaco, que apesar de envelhecido, protegia-me do frio e da umidade.
O problema não era o vento, nem a chuva, mas o obstáculo de atravessar a ladeira à frente, que mal iluminada era capaz de instigar a imaginação de qualquer um que a cruzasse naquele momento. Como sempre, minha preocupação era comigo mesmo e com o que pudesse me atingir. Que perigo estaria atrás daquelas árvores? Debaixo daquelas marquises? Quem estaria deitado ao lado dos sacos de lixo, impedindo a minha marcha tranquila pelas calçadas?
A única alternativa era caminhar pela rua... Olhos bem abertos... A respiração, quase imperceptível, não poderia atrapalhar a sensibilidade dos ouvidos. O silêncio só era quebrado pelo barulho de pés, meus próprios pés, pisando os gravetos que, indefesos ao vendaval do meio-dia, preenchiam todos os espaços da via de paralelepípedos.
Já estava na metade do percurso quando, ao meu lado, um estranho ruído deixou-me estagnado. Fechei um pouco os olhos para tentar enxergar algo à minha volta, porém a luminosidade dos postes não atravessava o que sobrara das copas das árvores. Senti um calafrio... Sensação esta motivada por algo como um sopro morno e perfumado a tocar meu pescoço. Não consegui mover um músculo sequer.
Meus pensamentos oscilavam entre seguir adiante ou retornar. A distância? Era a mesma. A escuridão? Intensa nos dois sentidos. O medo... Impedia minha decisão. Inúmeras imagens preenchiam minha mente, quando percebi uma sombra passando à minha frente. Silenciosa... Ela acelerou quando tentei movimentar a cabeça.
Intui que não queria ser vista e que talvez estivesse mais temerosa do que eu. Isso foi o suficiente para me tirar do estado em que me encontrava, gerando forças para uma reação. Gritei. Chamei sem saber a quem. Saí em direção ao vulto que corria à medida que eu me aproximava.
Fomos em direção ao final da ladeira e, quando cheguei à rua transversal, um clarão ofuscou-me a visão. Não havia mais árvores. As luzes, alaranjadas, iluminavam como sol a pino. Esperançoso de que alguém me apontasse o que eu procurava, percebi que as pessoas, desconfiadas, caminhavam apressadamente de um lado para o outro, insensíveis à minha necessidade.
Assim como eu, elas estavam preocupadas somente consigo mesmas e com o que pudesse atingi-las. Suas sombras... As suas sombras se misturavam! Iam e vinham. Vinham e iam. Atordoado, olhei ao redor e não reconheci a sombra que antes procurava. Estranhamente... Tinha a certeza de que ela estava lá...
Retornei à ladeira muitas outras vezes na ânsia de entender o significado de tudo aquilo. E mesmo sem respostas imediatas, assim continuarei fazendo, pois algo me diz que aquela sombra ganhará forma à medida que eu deixar de enxergar somente a sombra que existe dentro de mim.

Vitor Fernandes

Poeta

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Ser Poeta

Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente!

Florbela Espanca

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A tempestade

Macbeth

O mercador de Veneza

Sonho de uma noite de verão

As alegres senhoras de Windsor

Romeu e Julieta

A megera domada

Tudo bem quando termina bem

A comédia dos erros

Antônio e Cleópatra

Conto de inverno

O Escritor

Peço licença para entrar no seu espaço e, sem nenhuma pretensão, oferecer uma visão do mundo, muito particular é verdade, mas que tem a finalidade de resgatar um sentimento às vêzes esquecido: o prazer de ler. Ao escritor cabe a missão de sensibilizar o seu leitor, provocar emoções que vão da alegria à tristeza, do ódio ao amor, da coragem ao medo, numa viagem capaz de humanizar. Esse leitor, ao se sentir incomodado com um texto, tem a oportunidade de refletir sobre si mesmo. Homens e personagens se misturam em busca do seu destino e, nessa leitura de mundo, ficção e realidade se confundem, retratando a nossa própria vida. Embarque nessa viagem e seja bem vindo!

Vitor Fernandes

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Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma para sentir
A dos poetas também!

Florbela Espanca